quarta-feira, abril 25, 2012

O inevitável ciclo Dragon Ball Z do sistema D20



Existe algo que me incomoda muito no sistema D20 e em todos os sistema que são baseados nele, exceto o M&M que parece não sofrer isso, é o foco na evolução do personagem. O sistema todo é tão preso neste aspecto que é inevitável os mestres cairem no ciclo Dragon Ball Z.

O famigerado ciclo Dragon Ball Z, pode ser definido como o momento em que o mestre não consegue mais criar desafios para o seu grupo de rpg que não sejam vilões com um nível mais elevado que o do grupo. Então os heróis conseguem derrotar o vilão, ficam mais fortes, surge outro vilão mais forte que o anterior e consequentemente que o grupo, e o ciclo recomeça.

Eu batizei esse "efeito" do sistema D20 com esse nome porque é justamente o que acontece no anime/mangá de Dragon Ball Z. Detalhe: O autor de Tormenta RPG, J. M. Trevisan, parece ter usado este termo bem antes que eu em alguma antiga revista Dragon Brasil, então tecnicamente o criador do termo é ele e foi uma grande coincidência eu ter batizado esse efeito com o mesmo nome que ele sem nunca ter tido acesso a(s) edição(ões) da(s) revista(s) em que ele fez isso.

Vilões cada vez mais poderosos!

Este problema está longe de ser algo simples de ser resolvido visto que o crescimento do poder dos heróis é exponencial independente de sua classe. Um Guerreiro de 7º nível não se compara a um Guerreiro de 17º nível, então um desafio de nível menor que o do grupo geralmente é algo muito fácil. Não exige dos jogadores o seu máximo. Mesmo o mestre utilizando sua criatividade, não conseguirá por muito tempo usar desafios de níveis menores para entreter o seu grupo.  

O Livro dos Desafios do antigo D&D 3.0 traz novas alternativas para mestres que querem entreter o seu grupo sem a necessidade de criar sempre aventuras repletas de encontros com criaturas poderosas. Porém, apesar de dar muitas ideias interessantes, o livro é limitado a armadilhas, quebra-cabeças e afins. Não te ensina como criar um poderoso vilão de nível baixo.

Criativo porém não resolve o problema.

Mas isso existe? Vilões de nível baixo bastante poderosos? 

Lógico que sim, por exemplo: Chefões da Máfia. 

Vamos analisar um clássico, Don Corleone. Provavelmente se você fosse adaptar este personagem para D&D, provavelmente ele seria um Ladino de nível alto, porém isso não condiz com a "realidade". Ele é apenas um humano comum, com muitos recursos, bastante influência, muitos capangas, etc. Mesmo que seu adversário seja fisicamente mais forte que ele, Don Corleone não se intimidaria, ele não entraria num combate para sujar suas mãos, provavelmente convenceria o adversário do seu poder e o traria para o seu lado ou através de sua influência mostraria para o "pobre coitado" quem é que manda.

Um dos maiores vilões do cinema!

Agora me responda: em que universo um personagem como esse seria temido quando os heróis podem praticamente apagar o sujeito da existência em pouco tempo, sem que ninguém perceba, caso queiram? 

Se você tem um grupo de pelo menos 17 níveis, um vilão de nível 7, ou menos, não representa ameaça alguma. Mesmo que tenha influência, dinheiro, capangas e etc. 

Você pode argumentar que "a família" daria cabo dos heróis caso eles acabassem com o seu chefe, ou que ele provavelmente teria um belo arsenal de itens mágicos poderosos que garantiriam sua sobrevivência, etc. Mas no final o que importa é o nível de poder que o personagem tem em jogo, mesmo que o chefe da máfia tenha nível 1, ou nem isso, e tiver itens que simulem habilidades de 20º nível, ele passa a ser um desafio de 20º nível e quando os personagens superarem isso, outro vilão semelhante terá que possuir recursos para simular poderes maiores, então você entra no ciclo Dragon Ball Z novamente.

Existe um meio de superar essa limitação do sistema? 

Sinceramente, não. Em algum momento o mestre irá cair neste ciclo visto que o sistema foi pensado para ter esse foco na evolução do personagem. Mesmo que o mestre consiga fazer com que os personagens do seu grupo de rpg evoluam mais lentamente, ele apenas estará adiando o inevitável e aproveitando mais os momentos em que os aventureiros iriam temer um vilão de nível baixo. 

O mestre pode dar poder político à um vilão ao invés de níveis, por exemplo: é diferente ser um vilão com mania de grandeza do que um rei que tenha imunidade dentro do seu país mas comanda uma rede de crimes em todo o continente. Mesmo os heróis queiram e possam acabar com o vilão, eles não podem agir assim pois isso irá criar um incidente político de proporções inimagináveis. Isso quando utilizado uma única vez gera uma história bem legal, porém se sempre os vilões forem assim, o mestre estará sendo repetitivo e chato. Além do que, um grupo razoavelmente forte poderia matar o rei, substituí-lo e ninguém poderia afirmar que isso aconteceu. 

Um sistema que eu conheço que consegue fugir deste ciclo de repetições ou do ciclo Dragon Ball Z é o M&M (a.k.a. Mutantes & Malfeitores). Neste sistema os personagens não evoluem como em D&D. As campanhas são limitadas por um nível de poder, os heróis são premiados no final da aventura e seus poderes evoluem mas de maneira limitada. Por exemplo, certas características do personagem são limitadas pelo nível de poder da campanha, então por mais que o grupo participe de aventuras ele não sai daquilo. 
O mestre então pode investir em vilões do mesmo nível, maior e até mais baixo (porque aqui os recursos fazem mais diferença do que no D20), sempre, sem ser repetitivo e sem cair no ciclo Dragon Ball Z.

Um sistema muito bom!

Outro sistema que vale a pena mencionar é o do Serenity RPG, em que a evolução do personagem acontece de maneira bem lenta. Tão lenta que praticamente não tem como você cair no ciclo Dragon Ball Z porque os personagens passam muito tempo no mesmo "nível".

Outro sistema excelente!

Por ser uma característica do sistema, não tem como consertar isso. Diferente do foco maior no combate que apenas com algumas novas regras você consegue extrair um pouco mais de interpretação dos personagens. Para se livrar dessa característica, teríamos que reconstruir o sistema desde sua base. Mas e você já caiu neste ciclo alguma vez? Como se livrou dele? Como trabalhar para não cair mais neste ciclo?

2 comentários:

Daniel disse...

Ééééé compadre, esse é um dos motivos para eu cair fora do D&D. Eu entendo sua dor, é um saco quando chega no ponto que vira você tentando desafiar eles com supermonstros cósmicos e eles matando no tapa com seus bônus de +40. E o pior, por mais que se deixe a evolução lenta, um dia eles ficam superpoderosos.

Sobre os vilões de nível baixo, o Don Corleone tem acesso a muitos guardas, assassinos, e em um D&D teria alguém sempre protegendo com magia e músculos, e ainda poderia jogar monstros e armadilhas em cima dos PJs, e escapar na última hora por causa de algum item ou jogada inteligente (deixar os jogadores no dilema de salvar a cidade de uma avalanche ou pegá-lo, por exemplo). Falo mais sobre isso nesse post aqui: biroscanerd . wordpress . com / 2012 / 03 / 02 / viloes-de-nivel-zero (retire os espaços)=D

Ótimo post, camarada!

Bob Mota disse...

Concordo com você, no fim acaba o mestre desafiando os jogadores com forças cósmicas fenomenais. Sobre a evolução dos personagens, o sistema que eu tinha em mente era o do Serenity RPG cuja evolução é muito lenta! O que deixa tudo interessante é que lá os atributos são dados, por exemplo: Sua habilidade com pistolas é de 1d8. Esse, e qualquer outro atributo, pode ser evoluído até no máximo 2d12. Só que isso demora muito e por ser algo aleatório, nada garante que você vá conseguir ser bem sucedido em tudo.

Em D&D quando grupo está num nível muito alto, eles só falham ao tirar 1 no d20. A classe Mago nos primeiros níveis já é assim. Então mesmo que eu atrase a evolução, isso será inevitável.

Portanto em D&D não adianta atrasar a evolução, no Serenity RPG adianta e por serem dados as chances de falha são maiores.

E li essa sua postagem, está excelente. Só não lembro se comentei.

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